13 de agosto de 2015

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Voar


Hoje vim aqui para falar sobre liberdade. Contar para vocês como eu me enxergo ao dizer "sou livre." Para isso, precisarei contar um pouquinho da minha história para vocês. Se importa? Não é nada longo não. Mas puxa uma cadeira aí, senta e se acomode. Que tal um pouquinho de café para tomar enquanto lê? Não? Tá bom.
Eu nasci em Santos. Litoral. Praia. Alegria e folia o dia todo, nem sempre vindo de mim, mas dos que por ali passavam. Embora tivesse irmãos mais velhos, apenas eu e o mais novo vivia com a minha mãe. Meus pais eram felizes. Estavam casados. Mas um dia meu pai traiu minha mãe e ela o deixou. Não só a ele. Deixou Santos e viemos para Piracicaba onde minha mãe casou-se outra vez. Agora um dos meus irmãos mais velho viera morar conosco. Minha mãe aos poucos foi crescendo na vida, conseguiu uma casa em um bairro nobre, trocou os móveis que havia levado, começou a viver no "bem-bom", é assim que falam né? Pois bem. Minha velha se tornou alguém que ela não era, tudo para agradar os que nos rodeava. Ela sempre foi do pouco, da humildade, do "dane-se o que pensam", mas hoje não mais. Nessa mudança toda, eu vi meu irmão mais novo crescer de qualquer jeito. Sem educação. Sem limites. Meu irmão mais velho já tem quase 30 anos, ele pode fazer o que quiser sem dar satisfação para ninguém, sair e chegar a hora que quiser, mas eu não. Eu sempre precisei dar satisfação. Dizer para onde ia, com quem ia, que hora ia e que hora chegaria também. Eu precisava abaixar a cabeça e ouvir e levar toda a culpa pelas coisas que meu irmão mais novo fazia. E olha que ele fazia muita coisa. Ele levantava a voz, mandava "tomar no cú", respondia, se revoltava, saía sem avisar, aprontava na escola, chegava a hora que queria e dormia fora quando quisesse. Dá pra sacar a diferença? Porque havia muita. Ainda assim, eu me responsabilizava por ele. Eu o protegia. Eu sentia o dever de tentar livrá-lo de qualquer perigo. Eu o amava.
Crescendo desse modo, asfixiado pela diferença, desde pequeno nutria o sonho de voar. "Ah, que bobo!" Eu sei que foi isso que você pensou agora. Pode parecer bobo mesmo, mas eu sempre quis voar. Olhava para o céu e via como os pássaros eram livres quando voavam. Eu comparava o passarinho livre no céu com os que eu via preso em gaiolas. O do céu tinha vida. Tinha força pra encarar qualquer coisa. Tinha espaço para desviar do inimigo. Tinha a independência de colher o próprio alimento, de encontrar lugar segurocpara fazer seu ninho. E eu, ainda na inocência da infância, quis ser um passarinho, mas ao perceber que não poderia, quis uma asa delta. Depois um helicóptero. Depois um avião.
Hoje, meu grande sonho é ser piloto. Não pela profissão em si, mas pelo desejo de estar no céu, de atravessar nuvens, de olhar tudo de cima, de me sentir livre. É isso. Para mim, liberdade é voar.
Eu serei livre quando for independente. Quando estiver no céu cumprindo missões. Quando precisar resgatar alguém. Quando  comprar meu próprio avião. Quando esse mesmo avião decolar sem rumo no céu. Quando lá de cima eu olhar para baixo e só conseguir enxergar o pico das montanhas e as antenas dos arranha-céus. Eu serei livre quando voar.

@cristcamilla