16 de agosto de 2015

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Viagem da vida


Quando eu tinha um ano de idade, minha mãe descobriu que eu tinha asma. E ela começou a cuidar de mim excessivamente. "Filha, não beba água gelada.", "Filha, não brinca com água.", "Tá calor, mas não se molha.", "Troca essa blusa molhada.", "Para de correr pra não ficar com falta de ar." Mas eu era apenas uma criança. E como criança eu só queria me divertir. Ainda mais na geração que eu cresci onde brincar na rua era bem mais divertido que assistir vídeos no celular. Nessa vida de teimosia, volta e meia minha asma atacava. Eu ficava mal mesmo. Meus olhos, lábios e unhas ficavam roxo, me dava febre, eu tremia e precisava andar com a boca aberta. Perdi a conta de quantas vezes minha mãe precisou ligar para o SAMU de madrugada e eu passava noites e mais noites internada. Cresci assim. Entre soros e sopas.
Certa vez, em meus oito anos de idade, vi uma mulher chorando muito no corredor do hospital e quando minha mãe se distraiu, soltei a mão da dela e corri até a mulher.
- Oi, você também tá doendo? - eu perguntei inocente. Ela riu em meio as lágrimas e segurou minha mão.
- Querida - a voz dela era suave e terna. - Muitos aqui estão adoecidos. Quando você for maiorzinha, vai entender, que estamos em uma viagem que uma hora ou outra chega ao fim. Uma viagem é só uma viagem. E ela sempre tende a acabar.
- Ah, mas o que isso tem a ver com os doentes? - quis saber confusa.
- É o seguinte, alguns adoecem porque pegaram um vírus ou uma bactéria. Outros adoecem porque são muito vulneráveis e alguns simplesmente adoecem porque são velhos.
- Ah, e a senhora tá doente por quê? - nessa hora vi minha mãe andar até mim. Passos duros.
- Eu não estou doente meu amor. É que a viagem do meu pai acabou. - e dito isso minha mãe me puxou pedindo desculpas para a mulher. Naquele tempo eu não entendi muito bem o que aquela mulher quis dizer.
Com o passar do tempo conquistei imunidade e em tratamento com um pneumologista as minhas crises diminuíram. Evitava a todo custo hospital e pronto socorro. Mas, a mais ou menos uns dois anos, perdi uma tia que para mim era como se fosse a única, uma mãe louca. E então me lembrei daquela moça do hospital quando eu tinha oito anos. Me lembrei que a viagem da minha tia tinha chego ao fim. Eu sentei na cadeira do hospital com as pernas trêmulas. Mal podia acreditar que aquilo era real. Comecei, de repente, a observar todos ao meu redor. Havia tantas pessoas ali cada um com a sua dor literal. Cada um precisando se cuidar, temendo a morte. E encarei as crianças felizes e sorridentes brincando em um canto qualquer, elas sequer se conheciam, mas elas brincavam e riam como se muitas ali não estivessem doentes. Como se elas estivessem alheias à tudo e elas de fato estavam. Quis tanto ser uma criança naquela hora, me sentir inabalável mesmo sendo pequena, fraca e frágil porque naquele momento, eu era grande, mas estava fraca e fragilizada.
O hospital, paredes brancas ou azuis, era pra trazer uma imagem de paz e naquele momento, me trazia uma imagem de sofrimento. Eu sabia que naquele mesmo instante, havia alguém melhorando, havia alguém dando a luz, havia alguém no meio de uma cirurgia, havia alguém na UTI, havia alguém morrendo, alguém tentando dormir ou comer... Mas naquele momento havia eu. Sentada. Pensando que a viagem da minha tia havia acabado muito cedo. Pensando que aquela mulher estava certa e que agora eu entendia que a vida é uma viagem de fato. E que somos passageiros.
Claro que eu chorei por dias, mas eu sorri depois ao pensar que a minha tia tinha cumprido a sua missão. A vida é mesmo assim, afinal.

@cristcamilla