27 de agosto de 2015

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Paredes, minha cela


Paredes brancas. Porta sempre fechada. Enfermeiros do lado de fora passando de um lado para o outro e vez ou outra algum paciente dando trabalho. Mas o que ocorre do lado de fora da porta, eu tenho até medo de saber. Aliás, é por isso que vim parar aqui. Pelos medos.
Antigamente tudo me amendrontava. Tudo me fazia tremer. Mas isso começou quando me dei conta dos diversos perigos aos quais diariamente eu era exposta. Ao torná-los visíveis, me vi diante de um precipício e com o passar do tempo não consegui mais viver em paz.
Eu era uma pessoa razoavelmente normal. Mas eu sempre tive o defeito de dar importância a coisas pequenas. Eu sempre fui supersticiosa, sempre fui de me autodesafiar. E eu só tinha um grande medo na vida, insetos.
Mas quando eu era criança, eu via formas em roupas dobradas sobre a pequena cômoda e já imaginava diversos monstros que logo me engoliriam. Eu permanecia com os olhos abertos no escuro, mesmo sabendo que nada seria capaz de ver. Eu lia ou assistia sobre alguma doença e logo temia tê-la e desse temor, de repente, eu já começava sentir os sintomas da doença. Sempre assim. Eu tinha medo da porta do guarda roupa aberta e por mais cansada e sonolenta que estivesse durante a noite, eu levantaria para fechar as portas e gavetas também. Eu tinha medo da janela aberta, de faca sobre a pia quando eu ia dormir, de barulhos do lado de fora, de manter o pé fora do coberton e de cobrir a cabeça também. Esses medos todos se transforam em uma avalanche. Logo, qualquer lugar que eu ia, eu via uma ameaça. Então passei a me isolar.
Eu pedi demissão, parei de atender ao telefone com medo de morrer ou adquirir alguma doença pela pequena porcentagem de radiação presente nos aparelhos, parei de sair com os meus amigos com medo do elevador, com medo das escadas, com medo do carro, com medo das ruas. E tudo isso pra mim fazia sentido. Não estou dizendo que perdi a consciência, que deixei de raciocinar. Não, não. Só estou contando como cheguei até aqui. Só estou tentando fazer com que você entenda meu lado. Eu parei de comer alimentos industrializados e como eu não saía de casa, comecei a passar fome. Eu fervia a água com medo das verminosas, eu encomendei um ar condicionado porque nunca abria as janelas para receber ar fresco, e eu contratei alguém para limpar minha casa com seus próprios materias de limpeza, mas depois de um tempo ela me deixou pois não tinha coko eu pagá-la. Acredito até hoje que foi ela quem falou sobre mim para minha família e por isso estou aqui. E quando minha mãe chegou em casa cuspindo coisas que ela só poderia saber se convvesse comigo, eu logo pensei naquela mulher que contratei, e a partir daí criei o meu pior medo, o medo que acabou comigo: eu passei a temer os humanos. Mas não adiantou eu me trancar no banheiro, pois minha mãe ligou para o manicômio e me mandou para cá.
Ah! Que tola eu. Durante a minha vida inteira nutri diversos e infinitos medos. Eu vivi sobre a influência do medo quando eu fazia parte do pior medo que eu poderia sentir. Os humanos. Hoje, aqui dentro, totalmente segura, percebo que não há outro ser a se temer já que tudo é consequência do ato humano, ou a maioria das coisas. O homem é o pior mostro. Essas paredes brancas que me cercam, são grades que me protegem do zoológico livre do mundo afora. Não estou e nem sou louca percebem? Só estou aqui porque temi demais. E é isso que dá.

@cristcamilla