5 de agosto de 2015

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Encontrando o amor


- Você não pode me obrigar à ir para aquela cidazinha do interior! - gritei em protesto.

- Carlos, foi naquela cidazinha que você nasceu e viveu durante 17 anos da sua vida. - minha mãe tentava me convencer inutilmente.

Nunca que eu deixaria de morar na capital, deixaria as minhas fãs, meu "mundo" para voltar para aquela cidade do interior onde as pessoas mal sabiam mexer em um celular.

Afinal, sou Carlos Daniel, o cantor de sertanejo mais famoso do momento. A revelação do ano. O cara da vez.

- Exatamente, agora sou uma pessoa de maior e posso muito bem tomar minhas próprias decisões, e claro, tenho que resolver vários detalhes de alguns shows para os próximos meses.

- Concordo que você é de maior e pode tomar suas próprias decisões, mas não posso ver meu filho se auto destruir pela fama e se tornar um ser mesquinho que só quer saber de pegar garotas, sem ao menos dar o respeito.

Ela realmente estava uma fera!

Com minha mãe era assim. Ou eu concordava numa boa ou concordava à força, mas sempre tinha que concordar com ela. 

- Está bem, Luciana. -ela odiava que eu a chamasse pelo nome.- Mas quero deixar bem claro que ficarei lá por no máximo  dois meses e nada mais.

- Dois meses serão suficientes para colocar um pouco de juízo na sua cabeça que foi ofuscada por esse mundo da mídia. E quem sabe endireitar você...

-Mãe, não precisa jogar na cara sobre aqueles casos com aquelas garotas. Elas sabiam que eu não queria nada sério, mas mesmo assim quiseram dar... Quero dizer, sair comigo.

- Só sei que filho meu não fica conhecido como "Cantor galinha". Não criei você sozinha por todos esses anos à toa.

- Está bem! Está bem! - saí resmungando para meu quarto, já me preparando para o que viria nos próximos meses.

Não seria nada fácil!

....

Não posso negar que sentia falta desse cheiro de verde. Dessa liberdade. Sem paparazzis me perseguindo ou fãs enlouquecidas querendo me estrupadar. Ser famoso não é fácil!

Por um lado seria bom tirar esses dias longe de tudo. Entretanto, minha mãe tinha que esquecer essa história de que eu tinha que mudar e toda aquela asneira de sempre. Eu apenas me adaptei ao meu novo estilo de vida.

- Chegamos filho! - minha mãe falou entusiasmada. Pelo menos um de nós estava.

Apenas mexi a cabeça em concordância e olhei através do vidro para a casa que ainda se mantinha intacta desde a última vez que estive aqui, há mais de um ano atrás.

Era uma casa simples. Um sobrado de cor amarelo e um enorme portão branco. E na frente dela, do outro lado da rua, havia um enorme lago, que mais parecia um rio, onde eu antigamente sempre ficava observando quando sentia falta do meu pai ou quando simplesmente queria fugir da realidade. Era a forma que eu encontrava de me sentir melhor, claro que a música também contribuía e muito.

- Bom, acho que você ainda se lembra onde é seu quarto, certo? - minha mãe perguntou.

Olhei de soslaio para ela. Nem fazia tanto tempo assim que a gente foi morar na capital, ela só podia estar zoando com a minha cara.

Fui ao encontro do meu quarto e o encontrei exatamente da forma que havia deixado. As paredes brancas e apenas uma delas azul escuro com algumas notas musicais brancas colocadas na parede, a cana estava coberta por um edredom do Star Wars e, claro, no canto estava meu primeiro violão. Certamente, uma vez por semana ia uma empregada para manter tudo em ordem, mas deixei bem claro que não queria que retirasse nada do lugar.

Olhar todas aquelas coisas me causaram um sentimento de nostalgia muito forte. Olhando para aquilo tudo me lembrou de como eu era feliz sem ao menos precisar ter milhões de fãs ou muito dinheiro no banco. Eu era feliz, mesmo não tendo um pai que foi assassinado quando eu ainda era pequeno, mesmo não tendo uma garota interessada em mim, mesmo não tendo ninguém que dava credibilidade nas minhas músicas...

O que eu estou pensando? Eu era FELIZ sim com aquela fama toda! Dinheiro, mulheres, holofotes... O que mais eu poderia querer?

.....

Como não tinha nada de interessante para fazer em casa, resolvi dar uma volta ao redor do lago, do velho lago Mauri. Como era bom respirar esse ar puro novamente.

Estava caminhando lentamente quando uma garota que corria em direção oposta a minha, acabou tropeçando em seus próprios pés e caindo de cara no chão.

Sem pensar duas vezes fui à seu encontro, afinal, era quase obrigação minha ajudá-la. Já que havia apenas nós dois naquele local.

- Está tudo bem com a senhorita? - perguntei a ajudando a se levantar.

- Magina, acabei de cair de cara no chão e estou ÓTIMA. - falou ríspida. O que tinha de linda, tinha de grossa. Eita, trem bravo!

Aquela morena de olhos verdes, era arisca. E é justamente dessas que eu gosto.

- Calma, moça. Só queria ajudá-la.

- Ah, me desculpe. Estou um pouco estressada e por isso resolvi correr. É a forma que encontrei para me aliviar. A propósito, me chamo Lívia. - se apresentou um pouco mais calma.

-Livia.- repeti para mim mesmo.- Sou...

-Carlos Daniel, o cantor. Todos sabem quem você é. -riu da minha reação.

- É, pelo jeito sim. - se ela me conhecia, por que ela não estava gritando implorando por um autógrafo ou até mesmo tentando me estrupar?

- Por que está com essa cara? - ela perguntou.

- Você não agiu como uma fã louca... Por quê?

- Oras, talvez eu não seja uma "fã louca". - fez aspas com os dedos. - Querido, o mundo não gira ao seu redor. Confesso que gostei muito das músicas do seu primeiro álbum, mas desse último está tão sem sentimento que parece que nem foi você que compôs.

Ela realmente estava certa, não fora eu que havia escrito as novas músicas. Minha gravadora praticamente me obrigava a cantar aquelas. Segundo ela, eram as músicas do momento. Eu odiava aquilo!

Lívia voltou para a sua corrida, que agora se tornara caminhada, e eu a acompanhei. Me sentia bem com ela e sua sinceridade me cativava.

Era tão bom estar com uma garota que conversava comigo sem ao menos pedir algo como um autógrafo ou beijo.

....

Descobri que Lívia morava à apenas duas quadras da minha casa. Não sei como não havia a conhecido antes, já que se tratava de uma cidade pequena. Nossa amizade se desenvolveu e cresceu rapidamente. Era como se já nos conhecíamos.

Se passou um mês em um piscar de olhos. Estava tão entretido com os meus dias ao lado dela que não senti falta das coisas da cidade grande. Só sentia falta quando ela não podia me fazer companhia para ficar com seu namoradinho.

Nem tudo nesse mundo era da forma que queremos.

Lívia namorava Brayan, um cara moreno e que se achava o rei da cocada preta por ter um físico maior de músculos. Eu o conheci uma semana depois cheguei na cidade. Segundo Lívia, o mais novo melhor amigo dela precisava conhecer o seu namorado. ARG! Que namorado o quê?!

Não fui com a cara dele e ele não foi com a minha. Eu era uma ameaça. Com certeza sua namorada comentava sobre as tardes comigo e tudo mais, e, claro, ele ficava todo enciumado.

Mas mesmo assim eu conseguia algum tempo à sós com a Lívia. Nosso lugar favorito era a beira do lago em que nos conhecemos. Era um lugar tranquilo e reservado, quase ninguém passava por ele.

- Eu estava me perguntando o porquê de você ser tão diferente do que vemos na TV... Você não parece nada com aquele ser mesquinho que pensei que era. - ela comentou enquanto estávamos deitados na grama na beira do nosso lago olhando para o céu que já escurecia.

- É, eu me pergunto isso todos os dias. Também percebo que não sou eu mesmo. Minha gravadora impõe regras que precisam ser seguidas  entre elas, escrever minhas próprias músicas está fora de concepção.

- Você se coloca essas regras. Você é o cantor, eles precisam de você mais do que você precisa deles. Você pode sim escrever suas próprias músicas e ser você mesmo, basta deixar isso bem claro para eles.

Não é que ela estava certa.

Concordei com a cabeça.

- Então, senhorita Lívia, pelo que eu me lembro ontem você jogou um copo de água em mim. - disse arteiro já me levantando. - Agora terá vingança!

A peguei no colo e mesmo com ela se batendo para sair dos meus braços, consegui a levar até na beira do lago.

- Nem pense nisso, Carlos Daniel! - ela ordenou fazendo o biquinho que tanto amava. Na verdade, eu Mava tudo nela.

- Acho melhor você prender a respiração.

Em menos de um segundo pulei com ela no lago, nos deixando molhados dos pés à cabeça. Ela me mataria, mas eu iria amar ser morto por ela.

- Seu... Seu... idiota! Olhe como você me deixou toda molhada! - ela gritou.

Ela bateu na água jogando em mim. Iniciamos então uma pequena guerra de água. Até que ela saiu da água correndo e eu fui atrás, quando a alcancei acabei caindo e levei ela comigo. Quando percebi estava em cima do corpo dela, estilo aquelas cenas de filme mesmo.

Nosso olhar estava ligado e sua boca a centímetros da minha. Bastava eu abaixar um pouco para encostar em seus lábio, algo que eu queria desde que a conheci.

Assim o fiz. Colei nossos lábios, entretando, assim que tendei aprofundar o beijo, ela virou o rosto.

-Carlos, não. Eu tenho um namorado.

- POSSO SABER O QUE MINHA NAMORADA ESTÁ FAZENDO EMBAIXO DE VOCÊ?? - escutei a voz do enfeliz do Brayan gritando.

Era só o que me faltava!

Rapidamente ele chegou até mim me arrancando de cima da Lívia e me acertando um soco certeiro no olho direito.

Logo depois começamos a nos bater, mas Lívia focou entre a gente e eu fiquei com medo de machuca-la.

- NUNCA MAIS ENCOSTE UM DEDO NELA! TA ME ESCUTANDO? - ele gritava. Eu mal dava atenção para ele, o meu foco era a Livia que estava sem saber o que fazer.

-Lívia. - a chamei e ela deu total atenção para mim.- Eu não queria que você soubesse assim, mas eu te amo. Te amo desde o momento que vi você nesse mesmo lago. Eu quero muito que você fique comigo, sou capaz de deixar tudo, inclusive, minha fama por você.

Ela me olhou incrédula, mas nada disse. Então saí daquele local e fui para minha casa. Não seria capaz de ver a única mulher que amei com outro cara e preferindo a ele do que a mim.

- Mãe, hoje mesmo voltarei para capital. Não vou ficar mais nenhum dia nesse fim de mundo. - avisei.

- Mas filho, pensei que você estava se dando bem com a Lívia e que estava gostando daqui.

- Não, não quero mais ouvir esse nome. Eu só quero esquecê-la, você entende? - perguntei com os olhos cheios de lágrima.

Sei que homem não deve chorar, mas eu estava me controlando ao máximo para não cair em prantos. Estava doendo em meu âmago, uma dor sufocante que apenas ela poderia me confortar e arranca-la.

- Claro, filho. Eu entendo... Hoje mesmo partiremos. Acho que você já voltou aos eixos. - riu sem graça tentando amenizar a situação.

....

Seis meses. Seis enorme e dolorosos meses sem ver a minha Lívia. Ela realmente não me procurou mais, parece que havia feito a escolha dela.

Pelo menos no meio daquilo tudo, segui o conselho dela e apenas cantava as minhas músicas. Seria eu mesmo daqui para frente. Apenas um cara que gosta de cantar e se expressar através da música.

As garotas? Deixei de lado. A partir de agora apenas iria me relacionar com alguém que mexesse realmente comigo. Coisa que achava muito difícil de acontecer...

- Filho, o show vai começa daqui à 5 minutos. Está preparado? - minha mãe perguntou me tirando dos meus pensamentos.

- Claro. - dei um pequeno sorriso.

- Filho, não fica assim. Se não for para ser ela, será outra garota. Você precisa superar isso.

Eu apenas assenti com a cabeça e subi ao palco. Hoje estava o show realmente estava lotado.

Comecei a cantar algumas músicas já conhecidas pelo público e o pessoal cantava junto comigo em sintonia. Era tão lindo ver aquela interação, mas não era suficiente para apagar Lívia dos meus pensamentos.

Senti uma sensação diferente. Uma sensação muito boa, muito boa.

Olhei para a beira do palco e lá estava ela da mesma forma que me lembrava. Com seus cabelos negros e cacheados, sua pele branca e com as bochechas levemente coradas.

Ela estava tentando passar pelo segurança, que certamente a barrou.

Fiz a única coisa que poderia fazer naquele momento, parei o show.

- Pode deixar a moça passar, segurança. - ordenei.

Ela passou pelo segurança e olhou timidamente para mim. Apesar de escutar alguns cochichos do público, minha atenção estava voltada totalmente à ela. A única dona dos meus pensamentos nos últimos meses.

Ela se aproximou de mim ainda no palco.

- Carlos... Eu... Me desculpe. Deveria ter ido atrás de você naquele dia. Eu fiquei sem reação e... Eu te amo muito... É que...

Não deixei que ela terminasse, apenas selei nossas bocas que logo estavam guerreando entre si.

Quando o fôlego estava cessando e foi preciso separarmos, enfim, voltei em si e escutei os "Awn" das pessoas.

- Eu também te amo, Lívia. Mas disso você já sabe. - sorri.

- Estou um pouco temerosa em começar um relacionamento com um cantor, mas quero tentar.

- E seu namorado? - tive que perguntar.

- Deixei ele assim que você se declarou naquele dia. Fui atrás de você na sua casa, mas já havia partido. Você não imagina o quanto foi difícil chegar até você!

Não esperando mais nada, a beijei novamente. Era tão bom sentir os seus lábios nos meus.

- Essa aqui, pessoal, é Livia! Ela me mostrou o lado bom das coisas e me abriu os olhos antes que fosse tarde de mais, e agora tenho orgulho de chamá-la de namorada.

Sorrimos um para o outro enquanto todos aplaudiam o nosso amor.

@cristcamilla