14 de agosto de 2015

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Baú de Memórias



Era eu já muito velho, pro asilo havia levado apenas uma trouxinha de roupa e um pequeno baú. Meus filhos, aqueles os quais eu cuidei a vida toda, aqueles que eu ajudei a levantar quando os vi cair, eles haviam me virado a costa. Tinha cada um seguido a sua estrada e me deixaram aqui.  Minha velha, mulher da vida inteira, companheira de batalhas, há alguns anos havia falecido. Eu só tinha a mim e às minhas lembranças.
Esse dia estava chuvoso. Sentei na beirada da minha caminha pensando no quê eu poderia fazer hoje. De frente a mim estava o pequeno baú que eu carregava para todos os lugares, mas mal me lembrava do seu conteúdo. "Ta aí" pensei. "Vou relembrar o que tem nesse baú". Andei até o pequeno objeto de madeira e o coloquei sobre a cama. Ao abri-lo, retirei todo o conteúdo e coloquei ao lado do mesmo na cama.
A primeira coisa que contemplei visualmente foram fotografias, quem não guarda aquelas fotos especiais, de momentos que jamais repetirão? Pois então, eu guardava. As que estavam na minha mão, eram do dia do meu casamento, dos meus filhos quando na maternidade, das primeiras festinhas de aniversário, de algum outro evento que agora a minha cabeça já não conseguia com clareza lembrar. Já pensou na importância das fotos? Você as usa para registrar um momento que para sempre permanecerá na sua memória, mas você teme que não. Você teme perdê-los. Fotos são retratos espontâneos. São sorrisos sinceros ou forçados mesmo. O flash consegue captar a alegria do momento e nós, quando olhamos para foto, lembramos do que sentíamos na hora.
Depois de olhar bem para as fotografias, passei para uma camiseta desgastada e uma peça íntima feminina um tanto velha. A camiseta, eu havia usado no meu primeiro encontro com a minha esposa. Roupas são carregadas de memórias também, embora quase nunca percebamos. Ás vezes, abrimos o guarda roupa, encontramos uma peça e pensamos "eu estava usando essa roupa no dia que..." e lá vem história.  Aquela camiseta tinha uma história. Uma pequena mancha perto da axila direita. A peça íntima foi a que a minha mulher usou na noite de núpcias. Havíamos esperado tanto tempo. Ás vezes esperar vale tão a pena. Para mim valeu.
Passando adiante, avistei vários envelopes e logo me recordei serem cartas e bilhetes que durante a vida, minha esposa nunca deixou de me escrever. As pessoas acham que o romantismo só vale no período da conquista. É meu namorado vou escrever cartinha. É minha paquera vou escrever cartinha. Com minha esposa não. Ela dizia "Você é o meu amor, escreverei sempre uma cartinha." E ela escreveu mesmo. Durante os 35 anos que fomos casados. História de amor igual a nossa só em livros mesmo. Porque duas horas de filme seria pouco até para um resumo.
Recortes de jornal. Coisa da minha esposa outra vez. Ela tinha costume de recortar revistas e jornais quando via algo bonito. Desenhos que estava mais para rabiscos, coisas que meus filhos quando no início do aprendizado, fizeram para mim.
Um a um fui colocando no baú de volta. E a cada artigo que voltava pra lá, era uma memória nova que revivia. Aquela tarde foi repleta de lembranças. Sentimentos que renasceram. Lágrimas que chegaram aos olhos. É incrível como objetos, por mais pequenos e triviais que possam parecer ser, têm o poder de nos fazer reviver momentos e emoções e histórias. Aquele era o meu baú de memórias.


@cristcamilla